| Velta, a heroína dos quadrinhos brasileiro – Entrevista com o Criador Emir Ribeiro |
O MeuHerói.com, tem o prazer de apresentar uma entrevista exclusiva com o criador da maior super-heroína brasileira, feita pelo nosso novo editor Fernando Rebouças, confira! |

| Uma detetive e uma mulher incrível: linda, inteligente, talentosa e corajosa. Dentre tantas mulheres que conquistam o seu espaço no mundo atual, Velta é uma conquistadora de admiradores e leitores no universo criativo das histórias em quadrinhos. |
A personagem Velta é descrita por possuir longos cabelos loiros, dois metros e vinte de altura, habilidade em artes marciais e a capacidade de emitir descargas elétricas por todo o corpo. Velta é uma criação do desenhista paraibano Emir Ribeiro, que a criou em 1973. |
No mês de novembro de 2009, Emir Ribeiro lançou, em pré-vendas, o novo livro “Velta 2010 – Aventura nos anos 30”. Leia abaixo entrevista exclusiva com o autor Emir Ribeiro. |
1 – Emir, no final da década de 60, a indústria editorial ainda vivia sob forte influência dos heróis norte-americanos, não tínhamos a internet ou uma mídia independente madura no Brasil para divulgar desenhos nacionais, qual foi a sua grande inspiração e desafio para criar a personagem Velta? |
Emir – A Velta foi uma miscelânea de inspirações, que variavam entre personagens e pessoas reais. As formas curvilíneas do corpo da Velta foi inspirado pelas da mulher brasileira típica; sua preferência por andar de motocicleta veio da personagem belga Pravda; a linha de suas histórias, inicialmente, partiu das histórias norte-americanas de super-heróis (hoje, não é mais); sua preferência por trajes sumários foi proposital para afrontar a censura da ditadura militar da época, bem como os pudores exagerados das HQs de super-heróis estadunidenses; sua personalidade forte, decidida, exibicionista e sensual também foi para peitar o recorrente uso de personagens masculinos como protagonistas (onde as mulheres ficavam em segundo plano). |
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2 – Personagens femininas como a Mulher Maravilha, simbolizaram a ideologia feminista no hemisfério norte, você incluiria Velta nessa concepção? A sua personagem simboliza alguma postura ideológica? |
Emir– Não há relação alguma entre Velta e Mulher-Maravilha, mesmo porque considero essa segunda muito masculinizada. A Velta é uma mulher de personalidade típica Brasileira, já que expira sensualidade o tempo inteiro, porém, não há nela ideologia política ou de quaisquer movimentos de classes ou gêneros. A Velta apenas tem seu próprio senso de justiça, baseado na razão e no bom senso, e não banca a boba de se arriscar gratuitamente. |
3 – Os super-heróis dos gibis americanos atuam regionalmente em suas cidades reais ou fictícias, mas sempre demonstrando posicionamento global de salvadores do mundo. Velta, mesmo ambientada em cenários regionais também possui nas entrelinhas alguma postura global? |
Emir – Não. Apesar de ser bem humana em algumas situações, seu objetivo é o de ganhar dinheiro com suas habilidades, se divertir, se exibir, aparecer na mídia. Ou seja, nada tão altruisticamente sério como “salvar o mundo.” |
4- A sua personagem além de uma postura de poder também expressa sensualidade, na sua opinião, seria esta a principal maneira de cativar seus leitores? |
Emir – A sensualidade é apenas UM dos ingredientes da Velta, mas penso que o ponto forte acaba sendo as histórias e a forma como são resolvidos os problemas e casos que ela enfrenta. Concluo isso com base nas opiniões que recebo de quem lê suas aventuras. |
5- Utilizando seus próprios recursos, na década de 90, você produziu dois filmes em vídeo independentes, nos quais adaptou seus quadrinhos, fale um pouco dessa experiência. Pretende levar algo novo para o cinema nos próximos anos? |
Emir – Não, pois não tenho mais pique para bancar uma produção semelhante, além de nem ser mais seguro andar pelas ruas com uma câmera de vídeo. A produção dos filmes do Homem de Preto foi, no fundo, uma boa diversão de finais de semana, onde foram utilizadas as câmeras VHS que estavam à mão, na época. A grande vantagem do próprio criador de um personagem quadrinhos adaptá-lo para o vídeo é a fidelidade às suas concepções originais. Foi o que fiz com os dois filmes, ambos produzidos com baixíssimo orçamento e muito improviso. |
6- Entre os anos de 1993 a 2006, você trabalhou em editoras americanas, quais personagens você desenhou por lá, e o que foi mais positivo e negativo nessa experiência? |
Emir – Penso que o mais positivo foi ter aprendido a ser mais paciente na hora de desenhar, e me deter em detalhes que tornam a arte mais bonita de ser vista. Em segundo, eu classificaria o pagamento, bem superior ao pago pelas editoras do Brasil. Como pontos negativos, cito a relação difícil com os editores, sempre pessoas muito arrogantes, de pouca (ou quase nenhuma) objetividade, sempre exigindo prazos apertados na entrega dos trabalhos. E por fim, eu não me sentia realizado profissionalmente desenhando aqueles personagens, uma vez que meu estilo sempre foi o do quadrinho autoral. |
7- Você tentou apresentar Velta aos produtores norte-americanos? |
Emir – Sim, mas apenas dois se interessaram, mas, um ou outro queria modificar a concepção original e até o corpo da personagem. Por isso, desisti de novas tentativas. |
8- Considerando o mercado de trabalho para um trabalho autoral em quadrinhos, qual o melhor: o Brasil ou os EUA? |
Emir – Nesse caso, é o Brasil. Mas, desde que o autor banque as próprias edições, pois sempre há problemas no trato com editoras profissionais, especialmente calote. |
9- Qual o maior desafio para um desenhista de quadrinhos autoral no Brasil? |
Emir – Expor seu trabalho para venda. Há mil entraves e pilantragens para que ele nem consiga aparecer no mercado. |
10 – No mês de novembro de 2009, você lançou “Velta 2010 – Aventura nos anos 30”, o que motivou a temática deste livro, o que a obra guarda para os fãs de Velta? |
Emir – A motivação veio de uma antiga idéia (de 1976), inspirada pelo livro “As Aventuras de Tibicuera”, do escritor Érico Veríssimo, cujo personagem principal estava presente em qualquer época da história do Brasil. A série que explora a Velta agindo em tempos passados começou com a edição “35 anos de Velta,” centrada nos anos 60. A nova edição, portanto, apenas dá seqüência, e a época escolhida foram os anos 30. Os leitores podem esperar muitas surpresas, uma temática bem brasileira, e uma preocupação com a pesquisa de elementos que caracterizaram aquela década. |
11 - Velta já completou 35 anos de idade, ela sofrerá a passagem natural do tempo, ou assim como ocorre com a maioria dos personagens heróicos, ela se manterá com a aparência intacta? Qual será o futuro imaginário de Velta? |
Emir – Essa pergunta pode ser respondida retornando ao ano de 1976, quando produzi uma série intitulada “As Supernovas – As filhas de Velta,” onde a protagonista está mais velha, mais cautelosa e madura... porém, devido aos seus poderes, seu envelhecimento é mais lento que o das pessoas comuns. Mesmo nas histórias atuais, faço o tempo correr, porém, de forma mais vagarosa. Uma vez que não há como manter uma publicação mensal perene, o espaço entre uma história e outra, acaba sendo grande (6 meses, 1 ano, e às vezes, até 5 anos). Entretanto, na cronologia da personagem, o tempo real não pode se emparelhar com o tempo dos quadrinhos. Por isso mesmo, os 36 anos passados no tempo real equivalem a apenas 5 no tempo da cronologia da Velta. |
12 – Você já está trabalhando num novo livro de Velta? O que você pode revelar? |
Emir – Sim. Estou produzindo o segundo encontro entre Velta e Raio Negro, que sairá pela editora “Júpiter 2,” do José Salles. |
13 – Qual mensagem você passaria aos novos desenhistas e roteiristas de quadrinho nacional? |
Emir – Infelizmente, fica difícil dar conselhos ou sugestões num país que não tem mercado para HQ nacional. Mas, se algum dia houver, penso que os autores deveriam esquecer por completo qualquer influência desses quadrinhos tradicionais, e partir para um trabalho voltado para a identidade nacional, explorando suas características e realidade. Em suma: fazer algo diferente. |
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