Texto do Baraldi:  QUADRINHO NACIONAL PARA INGLÊS VER!

Eu Fernando Rebouças, compartilho a minha luta individual pelos meus quadrinhos autorais (www.oiarte.com) com todos os jovens e mais antigos autores da HQ Nacional que também lutam pela publicação de suas obras e pela dignidade moral e financeira de seus trabalhos. Sabemos que, apesar do sucesso de alguns nomes brasileiros, não exploramos o nosso mercado interno e externo editorial de maneira mais ampla (incluo os famosos, independentes e iniciantes), em virtude de um problema logístico ofertado pelas grandes distribuidoras, pelo egoísmo ou miopia de marketing de algumas grandes e médias editoras, e pela ausência de mais editais de patrocínio ao quadrinho nacional nas empresas públicas e privadas.

 

 

Muitos talentosos desenhistas nacionais para evoluírem vendem sua força de trabalho no exterior ou, com muito esforço, conseguem vender suas obras pela internet até para o mercado estrangeiro, enquanto isso as hqs impressas e digitais do exterior continuam galopando livres e soltas em nossas bancas de jornais, livrarias e audiovisual com grande tiragem e divulgação em nossos mass media, não temos xenofobia, gostamos de ler e conhecer o que vem de fora, sabemos que  o Brasil é um país aberto à todas as culturas, mas essa abertura em excesso retira os empregos e espaços de autores nacionais...

Lendo o texto de despedida do site Bigorna, escrito pelo grande desenhista Márcio Baraldi, em junho de 2011, destaquei um trecho que traduz o cenário verdadeiro de nossa categoria de desenhistas:

"O mercado de Quadrinhos no Brasil simplesmente desmoronou, evaporou da última década pra cá até se transformar num fiapo quase invisível. Com a exceção óbvia de Maurício de Sousa, não há mais quadrinhos brasileiros nas bancas e qualquer tentativa corajosa de alguns nobres colegas, dá com os burros n'água em poucos meses e edições. É uma vergonha que, em um país de centenas de cartunistas e quadrinhistas talentosos, de qualidade internacional, apenas um único tenha conseguido realmente ter sucesso comercial duradouro. É uma vergonha que tantos projetos maravilhosos de quadrinhos que, desde as primeiras décadas do século passado, chegaram às bancas, conquistaram leitores e espaço em outras mídias, tenham naufragado em pouco tempo. É uma vergonha que os teóricos, os críticos e a própria categoria nunca tenham discutido isso a sério, nunca tenham se unificado em torno da salvação deste relevante pedaço da cultura brasileira que é (ou era) o Quadrinho Nacional. Tirando o período em que a ADESP (Associação dos Desenhistas do Estado de São Paulo)e a ABD (Associação Brasileira de Desenhistas), nos anos 60, conseguiram criar uma mobilização real na categoria e chegaram muito perto de aprovar uma lei de proteção a HQB, nunca mais se viu movimento coletivo ou organização sindical alguma na categoria. Mauricio de Sousa, que foi presidente da ADESP, já não é mais sindicalista e sim um megaempresário e naturalmente suas opiniões mudaram.

É uma vergonha que hoje os próprios colegas não levem mais tal questão a sério, que ignorem e desdenhem todo esse passado, contaminados que estão pelo individualismo e pelo pensamento neoliberal, que prega que os pequenos produtores têm as mesmas condições de vencer que os grandes conglomerados e monopólios." (Márcio Baraldi - desenhista e editor do Bigorna.net)